29 de novembro de 2011

'Patafísica, poloneses e escândalos...

Hoje andei lendo sobre a 'patafísica, que imediatamente transformou-se em minha ciência preferida, isso porque apenas por meio dela é que determinadas situações absurdas e assustadoras podem ser explicadas, principalmente com relação aos acontecimentos no nosso Brasil "ex-colônia".

Criada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry, tem origem no grego e significa algo como "o que está acima (do que está além) da física", remetendo um pouco à metafísica ("depois da física"), e é a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções.

O Ubu Rei, personagem conhecido de Jarry, afirmou categoricamente que se não existisse a Polônia, não existiriam os poloneses. Isso é simplesmente brilhante! No Brasil podemos readaptar o cenário, podemos dizer que não houvessem políticos corruptos não haveriam escândalos. Mas esse é um sonho distante.

Todos os dias os jornais noticiam novos escândalos, em todas as esferas do poder público, de todas as agremiações partidárias, o rastro sujo se escorre por todo e qualquer espaço por onde possa passar pelo menos um centavo de dinheiro público. E a população pouco, ou nada, se preocupa. Estão muito mais interessados nas barganhas que pedirão ou receberão em pouco menos de um ano.

Aquele que é investido, pelo povo, para defender os interesses da sociedade, bem como seus auxiliares, diretos ou não, deveria no mínimo ter o dever de probidade, isso na teoria. A prática é completamente outra, e sem saber os nossos queridos políticos acabam aplicando a ciência criada por Alfred Jarry, criam leis para regular a exceção, criam leis para atender única e exclusivamente os próprios interesses.

"Se não existisse a Polônia, não existiriam os poloneses". Ah, se não existisse o Congresso, só pra começar...


Abraço. Boa leitura.

31 de outubro de 2011

Paz em Guerra

O homem já lutou incontáveis guerras desde o início dos tempos, e ainda lutará outras tantas até o fim dos tempos. A guerra está tão ligada à natureza humana quanto o desejo animal de reprodução – e talvez seja tão animal quanto, ou até mais. Se a guerra é essencialmente um mal, então o homem também o é.

E o que é mesmo a guerra? Sem muitas especialidades, é possível ser sintético e dizer que a guerra é quando homens matam homens. O assassinato é um ato de guerra, sem dúvida o mais característico de todos. Talvez por isso, e numa tentativa vã de cessar com as guerras, as religiões cristãs tenham posto através de seus profetas um mandamento específico: “Não matarás”.

A guerra não é um meio para outro fim se não para a própria guerra.

Poder, dinheiro, petróleo, territórios, entre outras coisas são usadas como pretextos para que os homens possam perpetuar a guerra. Os homens precisam de guerras, tanto quanto precisam de paz, só que precisam estar em guerra para estarem em paz. A paz sozinha não é o bastante para a natureza humana, a paz sozinha é inconcebível.

A história nos faz crer que ao fim de uma guerra todos os lados saem derrotados de alguma forma, mas enquanto a guerra está acontecendo alguém está vencendo, ainda que momentaneamente. É esse, talvez, o mais claro sinal de que o homem precisa da guerra, reconhecer que ao fim de uma guerra todos perdem.

Com todas as suas mazelas e riscos, a grande diferença – e talvez a única – entre a paz e a guerra, é que na paz homens não matam homens.

Mas homens continuam a morrer. Fome, doenças, acidentes ou o próprio tempo fazem na paz, o que o homem faz na guerra. A paz nada mais é que a guerra sem seu ato mais característico. E então me lembro de uma passagem em latim: “Si vis pacem, para bellum”. Se queres paz, prepara-te para guerra!


Abraço. Boa leitura.

22 de outubro de 2011

Mas. (Ponto final)

Eu não precisava escrever, mas. (Ponto final). O céu é azul, mas. (Ponto final). Os pássaros voam, mas. (Ponto final). Aquele batom vermelho era encantador, mas. (Ponto final). As pessoas sempre têm uma escolha, mas. (Ponto final). A noite estava calma, mas. (Ponto final). Um bom vinho sempre é uma boa companhia, mas. (Ponto final). Eu poderia continuar com isso, mas. (Ponto final).

Algum sentido no que eu escrevi antes? Possivelmente não. É engraçado? Talvez. O fato é que sempre que colocamos um "mas" após uma vírgula, uma pausa, esperamos não só uma continuidade, mas uma inversão de pensamentos, uma adversidade ao que foi dito antes. Não dá pra dizer: "Júlia gosto de você, mas. (Ponto final)". Continuemos então.

Resolvi escrever. Às vezes também é cinza. Não me trazem notícias suas. Eu não podia tocá-lo. Preferes ficar em cima do muro. Aquele abraço era cheio de tudo que não fosse calmo. Eu prefiro a sua companhia. Acho que as pessoas já podem entender o que eu quis dizer.

Preciso de algo mais para ir adiante.


Abraço. Boa leitura.

15 de outubro de 2011

Interesses

É na correria de uma cidade grande em que nós podemos perceber que, no mundo real, ninguém se importa com os outros. É verdade também que isso não é absoluto, mas basta conflitar o interesse do outro com o seu próprio e as pessoas estarão dispostas a mostrar quem realmente são por detrás da máscara de politicamente correto ou por detrás do escudo e espada de paladino da igualdade.

Num mundo ideal, se um mendigo na porta de um restaurante nos pedisse dinheiro pra comida e nós só tivéssemos o bastante para pagar a nossa comida compraríamos a comida pra viagem - porque certamente o restaurante não aceitaria que duas pessoas dividissem o mesmo prato - e comeríamos na rua dividindo com o mendigo. No mundo real nós olhamos para o lado e dizemos alguma palavra de negação ou simplesmente ignoramos.

Mas é sempre muito bonito falar no bem alheio. É sempre digno de aplausos quando alguém usa uma bela frase de fraternidade, justiça ou igualdade. É discurso recorrente atacar a hipocrisia, falar em ética, moral e dignidade. As pessoas só costumam esquecer que antes de satisfazer os interesses alheios, o que importa mesmo é satisfazer o nosso interesse pessoal e que a maior hipocrisia é satisfazer o interesse pessoal sob o argumento de satisfazer o interesse coletivo.

Seria muito mais fácil viver no mundo se um ato dessa natureza não existisse. As pessoas deveriam ser capazes de admitir que o próprios interesses vêm antes dos interesses alheios, mas ao invés disso vivem em uma espécie de peça teatral da vida moderna querendo pregar um faz de conta que todos sabemos que não existe.

Eu me importo primeiro comigo, é o meu interesse que eu coloco na frente, não tenho medo e nem vergonha de esconder isso. Se eu tiver que escolher entre o meu interesse e o de quem quer que seja, escolherei o meu, sem pestanejar. Se eu puder atender o meu interesse e, de brinde, o interesse coletivo será ótimo, mas não vou me colocar em segundo plano.

E para os quem acham que minhas palavras e meus atos são repletos de hipocrisia, não cito ninguém, não conto nenhuma história bonita de quando eu era criança e nem dou nenhuma satisfação. Eu tenho uma pergunta: eu admito que o meu interesse fica em primeiro plano, sou hipócrita por isso? Se defender o interesse próprio em nome do interesse coletivo é conceito de honestidade, ética e moralidade, eu prefiro que as pessoas continuem achando que eu não tenho nenhum pouco disso. (E o que as pessoas pensam, aliás, pouco me importa).


Abraço. Boa leitura.

3 de outubro de 2011

A Nova Guerra Social

Uma guerra começou no nosso país, uma guerra silenciosa e que pode ter consequências inimagináveis. Não começou agora, mas só agora enxergo claramente. E graças a um certo tipo de notícia que tem se repetido nas manchetes de jornal pelo Brasil inteiro.

De repente virou notícia de suma importância destacar a condição financeira de quem comete uma violação legal, agora é preciso taxar se o acusado é rico ou pobre, como se isso fosse agravante ou atenuante da situação.

O que se passa é que uma nova forma de instigação social, qual seja colocar pobres e ricos como inimigos, adversários ferrenhos, foi implantada pelo Partido dos Trabalhadores no último pleito, era o "Serra defensor dos ricos" e a "Dilma salvadora dos pobres". O fato é que a campanha passou, mas a rivalidade entre pobres e ricos só começou.

E começou de uma forma que gera ódio entre as pessoas. Me pergunto se isso é mesmo correto: odiar alguém pela sua condição social? Tenham dó, talvez os mais abastados tenham feito pouco caso da miséria alheia ao longo da nossa história, assim como os nossos miseráveis sempre se contentaram com esmolas históricas do governo da famosa "Emergência" das secas nordestinas ao globalizado mecanismo de cooptação eleitoral em que se transformou o Bolsa-Família.

Enquanto estudante de Direito me preocupo com a proporção que isso pode tomar na esfera legal, afinal fianças estratosféricas não eram comuns em nosso país até bem pouco tempo atrás. "É uma forma de deixar a justiça mais igual", alguém pode dizer. Entendi, tratar diferente para tornar igual.

Isso me lembra uma música de Engenheiros: "Todos iguais, tão desiguais, mas uns mais iguais que outros..."


Abraço. Boa leitura.

21 de setembro de 2011

"Pop in Rio"

Nesse fim de semana vai começar o Rock in Rio, um sonho de Roberto Medina que começou em 1985, naquele que talvez tenha sido o auge do rock 'n roll na América do Sul. AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions, Whitesnake e Queen, esta última considerada a atração principal do evento, estavam lá dando vida ao sonho dos amantes do rock na parte de baixo da América.

Quase trinta anos depois o mesmo Roberto Medina mostrou que, pra ele, o Rock in Rio não era um sonho, mas apenas mais uma oportunidade de ganhar uns trocados. Não o conheço, não conheço seus gostos, mas tenho certeza que ele não gosta de rock 'n roll. Eu gosto.

Em 1991 eu tinha só quatro anos, em 2001 ainda não tinha muito contato com o mundo da música em geral. Sobre as edições internacionais, minha opinião é obscena e impublicável. Mas em 2011 ver como atrações principais do evento Cláudia Leitte e Ivete Sangalo, entre outras, me deu embrulhos no estômago.

Eu respeito todos os estilos musicais (tá, não considero sertanejo música), mas cada macaco no seu galho. Ou será que alguém em sã consciência vai tentar me convencer que o axé baiano é parecio com rock 'n roll? Se for o caso, acho que próximo ano deveríamos abrir o carnaval de Salvador com um show do Sepultura e fechar com o Iron Maiden...

Repito, eu gosto de rock 'n roll. E tudo que espero das pessoas é respeito. Já não basta todas as piadas de péssimo gosto, os insultos sem razão e entre outros tantos preconceitos que nós, apreciadores da boa música, sofremos, querem agora transformar um evento que leva o rock no nome em um festival de aberrações.

Que mudem o nome do evento então, eu até tenho sugestão: "Pop in Rio". Mas esse nome não tem o mesmo apelo comercial não é Roberto Medina? E depois ainda chamam os outros de mal educados só por uma barba e um cabelo grande. Parafraseando Marcelo D2, é preciso manter o respeito.


Abraço. Boa leitura.

18 de setembro de 2011

Uma Nova História

Seria mais uma noite de sábado como outra qualquer, um bar com os amigos, uma conversa sobre qualquer assunto banal, afinal era dia pra descontrair. Tudo dentro da normalidade, ou era o que ele pensara ao acordar e sair para tomar um café na padaria da esquina, como de costume.

Caminhou até a padaria enquanto pensava em uma infinidade de coisas, tão rápido que não conseguia sequer saber no que pensava. Chegou lá, cumprimentou os funcionários e aguardou o café. Ficou observando a TV e os pensamentos foram sumindo, ele estava finalmente acordando.

Procurava alguma coisa, mas não sabia exatamente o que. Muito tempo já passara, mas parecia tão pouco. Entre tantos encontros e desencontros a história parecia não querer ir, e nem ele queria que ela fosse, mas ele sabia que tinha que seguir. O show tem que continuar.

Saiu da padaria e novamente infindáveis pensamentos começaram a passar na sua mente, dessa vez ele estava ciente de cada um. Foi quando esbarrou numa moça na porta do prédio. E que moça. Ele fez questão de juntar os papéis que ela carregava consigo e que ele derrubara com o choque. Por um instante ele teve a impressão de ter cruzado com olhar dela de uma forma diferente, mas deixou passar.

Conversaram um pouco no saguão, ela morava no prédio desde antes dele mudar-se, moravam no mesmo andar e ele nunca tinha prestado atenção nela. Por um instante pensou alguma coisa que não sabia exatamente se devia, a convidou pra sair. Ela hesitou, mas aceitou o convite, queria muito sair mas a falta de companhias vinha sendo um problema. Se despediram e acertaram de sair pra jantar.

Ele ligou para os amigos, avisou que chegaria um pouco atrasado no bar. Contou as horas e quando ia sair para passar no apartamento dela, a campanhia tocou. Era ela, ainda mais incrível do que pela manhã. Ela sorriu e ele a cumprimentou com um beijo tímido no rosto. Que perfume, que pele macia. Foram jantar.

Durante todo o jantar ele encarava quase que sob efeito de um feitiço os olhos dela. Ela percebeu por algumas vezes, mas deixou passar. Ele hesitou, mas a convidou para sair com ele pra uma bebedeira de sábado a noite. Ela queria ir, mas recusou o convite. Ele só aceitou a recusa após ficar certo um novo encontro. Ao se despedirem, foi a vez dela beijá-lo timidamente no rosto.

E ele foi sair com os amigos com muitos pensamentos fixos na cabeça, inclusive sobre a história que o incomodara naquela manhã. O tempo não volta, as lembranças ficam na memória e não importa o quanto queremos que elas se repitam, não vai acontecer de novo. As novas histórias trarão novas lembranças, mas nunca apagarão as demais. E ele queria lembranças dessa moça.


Abraço. Boa leitura.

15 de setembro de 2011

Decifra-me ou devoro-te

A mesa em que ela estava sentada ficava ao lado de uma vidraça. Quando ele desceu do carro - na hora marcada, como sempre - logo a viu através do vidro. Ela também o viu descendo do carro.

Enquanto ele entrava sorridente no restaurante e se dirigia à mesa ela mantinha-se na mesma posição. O cotovelo esquerdo na mesa, o queixo apoiado sobre o punho. A vista olhando através da vidraça para algum ponto indeterminado do outro lado da rua. Ela o tinha visto e ele percebera, mas ela não desviou o olhar do que quer que fosse que ela estava visando.

No seu rosto não havia indiferença, ela na verdade parecia estar ocupada com algo muito importante para poder falar com ele. Só depois que sentou-se à mesa os olhos dela viraram-se para ele.

Aqueles olhos....

Eles eram de um tom esquisito - no sentido original da palavra - de castanho, quase da cor de vinho tinto. Como se tivesse sido pintada por um artista que dispunha de poucas cores, seu cabelo era rigorosamente do mesmo tom, contrastando com a pele muito branca, quase pálida.

Quando ele sentou-se ela esboçou aquele seu sorriso característico, dado muito mais com os olhos do que com a boca; sem mostrar os dentes. Para comer ele pediu um assado, especialidade da casa, e uma cerveja irlandesa para acompanhar. Ela fez um comentário sobre a harmonização do prato com a bebida e a partir daí começou a conversa.

As conversas com ela eram sempre agradáveis. Como um maestro conduz uma orquestra, ela conduzia os assuntos, passava de uns para os outros sem que se percebesse a mudança. Comentários bem-humorados se alternavam com outros, de tom ácido, sempre no momento exato. Mas havia algo estranho em seu olhar....

Por mais profundamente que ela estivesse olhando nos olhos dele, e por mais concentrada que estivesse na conversa, seu olhar sempre parecia dizer que ela estava pensando em algo de mais importante, de mais misterioso.

Desde a época em que ela se mudou pra a rua dele e eles se conheceram, aquele olhar o maravilha e o assombra. De lá pra cá outras mudanças já fizeram com que eles se afastassem um pouco mais, no entanto, decifrar aquele olhar continuava sendo para ele uma obsessão.

Por esse lado, conversar com ela, estar com ela, era um tanto como lutar esgrima. Uma luta elegante, da qual ela era mestra. Num momento parecia abrir a guarda, e atraía um golpe apenas para revidar com um contragolpe fulminante. Touché!

De tanto sofrer com essas estocadas, ele já estava calejado, e às vezes tinha a impressão de que continuava a fazer aquilo apenas como uma espécie de esporte. Mas então ela dava mais um daqueles sorrisos, como só ela sabia fazer, e ele logo lembrava-se do motivo pelo qual lutava para decifrar aquele misterioso olhar.

Ambos acabaram de comer, ela recusou a sobremesa, disse que estava de dieta. Ele olhou o relógio, lembrou que tinha um compromisso. Um velho amigo estava na cidade e eles haviam combinado de jogarem uma partida de tênis.

Eles se levantaram - embainharam seus floretes - e foram saindo do restaurante, na calçada ela perguntou se poderia assistir a partida de tênis, afinal não tinha nada pra fazer mesmo.

Ele respondeu rápido que sim. Enquanto eles se dirigiam cada um para o seu carro trocaram um olhar rápido, quase acidental. Foi então que por um instante, tão rápido que ele não poderia nem mesmo dizer com certeza se tinha acontecido, ele teve a ligeira impressão de finalmente ter entendido tudo.

Seria possível?

Não.

Deve ser só coisa da sua cabeça....