22 de outubro de 2011
Mas. (Ponto final)
Algum sentido no que eu escrevi antes? Possivelmente não. É engraçado? Talvez. O fato é que sempre que colocamos um "mas" após uma vírgula, uma pausa, esperamos não só uma continuidade, mas uma inversão de pensamentos, uma adversidade ao que foi dito antes. Não dá pra dizer: "Júlia gosto de você, mas. (Ponto final)". Continuemos então.
Resolvi escrever. Às vezes também é cinza. Não me trazem notícias suas. Eu não podia tocá-lo. Preferes ficar em cima do muro. Aquele abraço era cheio de tudo que não fosse calmo. Eu prefiro a sua companhia. Acho que as pessoas já podem entender o que eu quis dizer.
Preciso de algo mais para ir adiante.
Abraço. Boa leitura.
18 de setembro de 2011
Uma Nova História
Caminhou até a padaria enquanto pensava em uma infinidade de coisas, tão rápido que não conseguia sequer saber no que pensava. Chegou lá, cumprimentou os funcionários e aguardou o café. Ficou observando a TV e os pensamentos foram sumindo, ele estava finalmente acordando.
Procurava alguma coisa, mas não sabia exatamente o que. Muito tempo já passara, mas parecia tão pouco. Entre tantos encontros e desencontros a história parecia não querer ir, e nem ele queria que ela fosse, mas ele sabia que tinha que seguir. O show tem que continuar.
Saiu da padaria e novamente infindáveis pensamentos começaram a passar na sua mente, dessa vez ele estava ciente de cada um. Foi quando esbarrou numa moça na porta do prédio. E que moça. Ele fez questão de juntar os papéis que ela carregava consigo e que ele derrubara com o choque. Por um instante ele teve a impressão de ter cruzado com olhar dela de uma forma diferente, mas deixou passar.
Conversaram um pouco no saguão, ela morava no prédio desde antes dele mudar-se, moravam no mesmo andar e ele nunca tinha prestado atenção nela. Por um instante pensou alguma coisa que não sabia exatamente se devia, a convidou pra sair. Ela hesitou, mas aceitou o convite, queria muito sair mas a falta de companhias vinha sendo um problema. Se despediram e acertaram de sair pra jantar.
Ele ligou para os amigos, avisou que chegaria um pouco atrasado no bar. Contou as horas e quando ia sair para passar no apartamento dela, a campanhia tocou. Era ela, ainda mais incrível do que pela manhã. Ela sorriu e ele a cumprimentou com um beijo tímido no rosto. Que perfume, que pele macia. Foram jantar.
Durante todo o jantar ele encarava quase que sob efeito de um feitiço os olhos dela. Ela percebeu por algumas vezes, mas deixou passar. Ele hesitou, mas a convidou para sair com ele pra uma bebedeira de sábado a noite. Ela queria ir, mas recusou o convite. Ele só aceitou a recusa após ficar certo um novo encontro. Ao se despedirem, foi a vez dela beijá-lo timidamente no rosto.
E ele foi sair com os amigos com muitos pensamentos fixos na cabeça, inclusive sobre a história que o incomodara naquela manhã. O tempo não volta, as lembranças ficam na memória e não importa o quanto queremos que elas se repitam, não vai acontecer de novo. As novas histórias trarão novas lembranças, mas nunca apagarão as demais. E ele queria lembranças dessa moça.
Abraço. Boa leitura.
8 de setembro de 2011
O Sommelier
- Tenho uma entrega para o senhor Salazar - falou o entregador muito bem vestido.
- Sou eu mesmo - respondeu secamente, com um palpite estranho.
- Assine aqui por favor.
Ele assinou onde o homem indicou e recebeu o pacote. O entregador saiu sussurrando algo que ele não conseguiu ouvir direito. O que ele acabara de receber não era tão leve quanto parecia. E ele entendeu porque assim que abriu a embalagem de papel. Era uma caixa de madeira que ele reconheceria em qualquer lugar.
Era uma caixa feita de mucibo, um tipo de madeira quase extinto, vindo de Angola. E ele já sabia o que estava no interior sem precisar abrir. Era um Montrachet, um vinho antológico que ele vira alguns dias antes em uma casa de vinhos que visitara.
Não fazia ideia de quem podia ter lhe mandado tal presente, aliás, não era um presente comum. Não era todo dia que se presenteava alguém com um vinho daquela natureza. E ainda mais com aquela embalagem de mucibo que praticamente dobrara o já elevado valor da garrafa no interior.
Resolveu abrir a caixa em busca de um cartão ou algo parecido. Ao abrir o cigarro lhe caiu da boca, se não estivesse sentado teria ele mesmo ido ao chão. Era um outro vinho que estava no interior, um Romanée-Conti. Outro vinho não, outra garrafa, pois aquela não continha qualquer líquido, estava aberta e vazia.
Ele agora sabia quem tinha mandado o "presente". Era o sinal que ele precisava para abandonar os velhos sonhos e trocá-los por novos. Pensou em arremessar a garrafa contra a parede e partí-la em mil pedaços, não o fez. encontrou no canto da caixa de madeira a rolha, sentiu o aroma daquele vinho, então colocou novamente a rolha e fechou a garrafa vazia.
Levantou, foi até a estante e colocou lá, ao lado das comendas que já recebera como sommelier. Com um punhal que também estava na estante, talhou na madeira uma frase: "Aqui jaz um sonho sem dono".
Abraço. Boa leitura.
3 de setembro de 2011
Sorrisos
Era uma noite como tantas outras, e como sempre ele sentia-se muito feliz com ela por perto, não parava de pensar nela, ainda que ela estivesse ali a uma distância que na prática não existia. De repente ela levantou, foi até ele, lhe deu um abraço e um beijo no pescoço. Ele sorriu intensamente.
Um outro abraço, um beijo. E ele sempre encantado com o sorriso dela. Nunca conseguira entender o porque de tamanho encanto, mas isso pouco importava. Nada mais importava quando estavam juntos. Ela voltou pra poltrona.
Ele foi até a janela, ficou olhando o céu estrelado, mas sem lua. E mesmo com ela ali, do outro lado da sala, pelo simples fato de não estar a vendo, sentiu saudades. Foi então que, num estalo, percebeu porque mesmo estando com ela não parava de pensar nela: ele a amava intensa e imensamente.
Abraço. Boa leitura.
29 de agosto de 2011
Noite e Dia
Perdeu a paciência, juntou seus papéis e rapidamente guardou tudo em sua maleta. Era um dos mais estranhos congressos de pseudociência que já tivera participado, mas outra coisa ocupava seus pensamentos, outra pessoa, aliás.
Ele não conseguia sequer lembrar-se da última vez que aquela sensação estivera presente em seu dia. Mesmo acordado ainda continuava sonhando e ela lá estava, num daqueles sonhos em que o menos importante é acordar. E nisso tudo a única coisa que ele não conseguia era encontrar uma explicação razoável, embora isso não fizesse diferença.
Preferiu um ônibus ao invés de um táxi pra ir do congresso para sua casa. O percurso de pouco mais de uma hora pareceu uma eternidade se comparado à rapidez com que passou aquela noite, faria qualquer para que o tempo tivesse passado mais devagar, pra que o céu tardasse em clarear, as estrelas eram muito mais incríveis, mas não tanto quanto ela.
Chegou em casa e quando abriu porta deu de cara com sua bagunça, olhou rapidamente a foto colada no espelho e sorriu para si mesmo esperando que as coisas realmente melhorassem e sentindo uma saudade agradável.
Abraço. Boa leitura.
21 de julho de 2011
Velha Nova Página...
Os dias haviam virado semanas e, em breve, virariam meses. Ele sabia que ela tinha conseguido um bom emprego na Europa e em breve partiria, para voltar sabe-se lá quando. E ele pensou, e ponderou, mas não conseguia mover uma palhar sequer. Ele precisava de algo mais para correr, de algo que nunca tivera certeza se ela lhe ofereceria.
No mais íntimo de sua saudade, o que ele queria mesmo era que os sonhos de todas as noites se tornassem reais. Ele, ela, dois sorrisos e um conto de fadas. Suspirava pensando nisso e desanimava em seguida, a vida real era muito mais dura.
Levantou da poltrona e foi até a cozinha buscar mais café. Na volta o vento fez a janela da sala bater forte e ele teve um pequeno susto, derramando café no chão. Normalmente ele deixaria aquela mancha de café ali por dias, até que resolvesse chamar a diarista. Mas, por uma ironia qualquer, foi até a cozinha, molhou um pano e foi limpar a sujeira.
Quando limpava o chão ele viu o reflexo de alguma coisa sob a poltrona, esticou-se e não alcançou. Tirou a poltrona do lugar e encontrou um porta-retratos, era uma foto sua com Luiza. Uma foto boba, que eles tiraram no último dia do curso de fotografias que fizeram juntos, estavam tão felizes, tão sorridentes.
A lembrança boa lhe arrancou uma lágrima, não de tristeza. Sorriu e resolveu arrumar todo o apartamento.
Abraço. Boa leitura.
Quem quiser mais contos de Miguel e Luiza clique aqui.
5 de julho de 2011
Lembranças, Disfarces e Reviravoltas... - Minissérie #2
Como já era de se esperar, ela não atendeu. Não estava dormindo, mas queria saber até onde a inquietação do rapaz o levaria. Anita já sabia onde estava pisando, e não foi à toa que às 10h recebeu uma mensagem de Luiz, perguntando se poderia vê-la novamente. Ela respondeu que sim e completou dizendo que sempre almoçava num restaurante perto da praia e que ele reconheceria o lugar.
Fazia muito tempo que não fazia isso, mas Luiz queria impressioná-la. Depois de muito tempo sentiu necessidades de impressionar alguém. Pegou a velha motocicleta e saiu cortando as ruas da cidade até a praia, contava os segundos para a hora marcada. Quando foi se aproximando da praia, um flash veio em sua memória, ele lembrara exatamente de Anita quando estudaram juntos. Mas iria aguardar o momento ideal para revelar isso.
Luiz chegou ao restaurante na hora marcada e ficou esperando Anita por uns 30 minutos ainda. Lá vem ela. Encantadora como sempre, senta-se a frente do barman e ele sorri dizendo que ela ainda não perdera o hábito de chegar atrasada aos lugares. Ela desconversa.
Ele não conseguia comer, deu umas duas garfadas apenas na comida, fitava descaradamente os olhos verdes de Anita. Ao terminarem ele a chamou para ir caminhar na praia. Ela relutou um pouco, confirmando o que ele já tinha certeza, mas acabou aceitando o convite.
Anita tentou aguardar o momento certo para aquela pergunta, mas percebeu que dependendo de Luiz o momento certo nunca chegaria, foi quando ela resolveu cortar o assunto pela metade e perguntar ao rapaz o que levou um homem que carrega uma aliança dourada na mão esquerda sair ao encontro de uma antiga colega de classe, que, sabiam os dois, não era qualquer colega.
- Foi difícil reconhecê-la. Eu achei que a parte da amiga de colegial era apenas um pretexto para flertar, mas que de certa forma me atraiu. Só quando vinha para a praia foi que me dei conta. Eu agora sei como foi que a achei familiar, Diana. Foi pelo seu sorriso, ainda é inconfundível. Mesmo com o cabelo pintado e as lentes de contato que nunca lhe foram peculiares. Mas e você porque me procurou depois de tanto tempo? Mudou de ideia ou quer apenas mais uma? – falou secamente demonstrando irritação pelo teatro que a moça tinha feito.
- Você sabe que eu não mudo de idéia, mas se eu tivesse mudado o que aconteceria? Afinal, você resolveu mesmo casar! Finalmente encontrou alguém que aceitasse viver a mesma coisa até a morte – falou em tom de deboche, o que irritou mais ainda o rapaz. – Talvez eu tenha ficado com saudade de alguma coisa em particular.
- Se foi apenas saudade o que você sentiu, acho que ambos perdemos tempo vindo aqui. É melhor irmos embora – falou o rapaz sinalizando dar as costas, mas rapidamente sendo interrompido por Diana agarrando sua mão. – O que mais te trouxe aqui Diana?
Ainda continua...
30 de junho de 2011
Pérola
Espantou-se imediatamente, era uma mensagem de texto de Pérola. Abriu, mas para seu lamento estava corrompida mensagem, algo havia dado errado no envio. Ele telefonou para ela, o celular estava desligado. Ficou intrigado, não esperava que ela lhe mandasse uma mensagem.
Tentou mais algumas vezes telefoná-la, em vão. Voltou para a cama e ficou mais uma vez encarando o teto. Agora ela ocupava sua mente, mas muito mais que qualquer traço que ela carregasse ele afundava seus pensamentos naquele sorriso que ela carregava, doce, tão doce. Da janela veio um vento, um tanto quanto frio.
E ele já quase dormia quando o celular toca novamente. Dessa vez uma mensagem da operadora, avisando que ela tinha ligado o celular. Ele ligou, imediatamente. Ela atendeu já dizendo que seu celular havia descarregado e perguntando da mensagem. Ele pode sentir um certo alívio do outro lado da linha quando disse que a mensagem havia chegado corrompida, ilegível.
Ele então perguntou o que estava na mensagem e ela disse que não era nada importante, em seguida disse que precisava desligar, já era tarde e ela trabalharia amanhã cedo. Ele desligou com uma curiosidade infindável. Do outro lado, ela sorriu pois a mensagem dizia justamente que ela queria apenas ouvir a voz dele.
Abraço. Boa leitura.
27 de junho de 2011
Lembranças, Disfarces e Reviravoltas... - Minissérie #1
Entrou no vestiário com a imagem da ruiva na cabeça e torcendo para que tivesse a oportunidade de atendê-la. Vestiu-se rapidamente e correu até o balcão. A moça, indecisa, ainda não havia escolhido o que beber e foi aí que Luiz viu a oportunidade, sugerindo a ela o drink da casa. Ela sorriu, encarou o barman e disse que "podia ser", mas, antes que ele saísse, ela completou com uma frase que o deixou mais intrigado:
- Conheço você!
Ele sorriu ao ter a confirmação da impressão que tivera, mas de imediato viu dois problemas: não sabia de onde e nem sabia o nome dela. Foi então que mais uma vez a moça foi incisiva, quase como se estivesse lendo a mente dele:
- Anita, nós estudamos juntos no colegial. Você se chama Luiz não é?
- É me chamo Luiz, tinha tido impressão de conhecê-la. Só não me lembrava de onde. Mas como você me reconheceu? Eu mudei muito desde os tempos de moleque.
- Eu não te reconheci de agora, tenho vindo muito aqui ultimamente. Foi numa dessas noites que tive a certeza!
- Mas isso ainda não responde a parte do “como você me reconheceu”, como teve “a certeza”? – falou soltando um riso malicioso.
- Existem pessoas que a gente vai reconhecer pelo resto da vida.
Ele se virou para atender outra pessoa, quase que ignorando o que a bela moça acabara de dizer. Ela já ia lhe dizer umas boas verdades quando viu passando pelo balcão o gerente da boate. Enquanto fazia o drink, olhou para ela e mexeu os lábios torcendo que ela fosse boa em leitura labial. Ela entendeu, com sorte é verdade, o que ele dissera:
- Começo a achar que você está flertando descaradamente comigo.
Aproveitando o momento, Anita abaixou a cabeça, abriu a bolsa, tirou a quantia certa para pagar o drink e já ia se retirando quando sacou da bolsa uma caneta que usou para escrever em uma das cédulas o seu telefone.
Ele pegou o dinheiro e guardou no bolso, enquanto acenou para o colega no caixa, passando a mensagem que a bebida da moça era por conta dele. Depois que a moça partiu foi como se cada minuto durasse uma hora e ele não via a hora de ligar para ela, estava realmente intrigado. Passava um pouco das cinco da manhã quando ele foi liberado, imediatamente ligou para a moça.
To be continued...
Nota dos Autores: o texto é uma parceria - do tipo "cada um escreve um pedaço" - entre Fernanda e eu (Fahad). E a continuação é por conta dela postar, já está escrita, ou quase, só falta ela escrever o fim, portanto, se faltar o fim não é culpa minha (risos).
23 de junho de 2011
Encontros e Despedidas
Guilherme e Marina se conheciam desde a juventude, vizinhos de mesma rua no subúrbio de Ouro Preto, estudaram na mesma escola, pegavam os mesmos ônibus e se separaram quando ela, um ano mais velha, mudou-se para Belo Horizente, foi fazer faculdade de Farmácia. Dali em diante eram raros os encontros, mas sempre longos os também raros telefonemas.
E ele sempre tentando esconder o interesse que tinha desde os tempos de criança. Tinha um carinho por ela maior que todo o estado de Minas, mas não tinha coragem de tentar descobrir se era algo mais ou, sequer, de saber o que ela pensava disso. Por vezes isso o machucara, principalmente quando ela vinha falar de alguém em quem estava interessada.
E mesmo depois de tanto tempo, cada um sozinho do seu lado. Ele nunca teve coragem de tocar no assunto. É um caso que esse contador de estórias jamais seria capaz de imaginar e que me faz imaginar o que aconteceria se ela soubesse que todos os reencontros faziam com que o coração dele batesse mais forte e toda despedida fazia o coração dele apertar...
Abraço. Boa leitura.
22 de junho de 2011
Pôr-do-Sol
Toda vez que parava olhando as fotografias velhas do tempo em que podia rir bem alto tarde da noite enquanto tomava um vinho barato e ouvia Caetano Veloso com uma de suas namoradinhas de motel, ele acabava bebendo sem parar tendo lembranças fúnebres de sua juventude.
Era, hoje, um homem bem sucedido. Um apartamento no Leblon, um carro de luxo e um saldo bancário de fazer inveja a qualquer outro companheiro de trabalho. A sutil diferença é que Lucas estava solitário, uma solidão que já durava mais de vinte anos.
Nunca lhe faltaram trepadas, sempre tinha uma outra querendo sair com ele nas noitadas da vida. Mas ele não tinha uma que pudesse lembrar quando fosse reencontrar os amigos de infância, casados e com filhos. E ele tinha um filho, de quem não tinha notícias tinha mais de três anos.
Miguel, seu filho, havia deixado a casa do pai ao completar dezoito anos. Não carregou consigo sequer uma camiseta que tivesse sido paga com dinheiro de Lucas. Foi ao banco e recebeu a herança que recebera de seus avós quando sua mãe ainda era viva. Nunca engoliu o pai, mas este nunca aceitou que o filho fosse parar num lar para abandonados.
Foi à adega, pegou uma garrafa de Vino Nobile di Montepulciano, era impossível identificar a safra, tinha pelo menos uns dez anos de adega. Abriu sem cerimônias, como se fosse um daqueles vinhos baratos de trinta anos atrás. Pegou o telefone e ligou para Sofia, uma prostituta que ele adotara como particular e a quem "doava" quase metade do seu salário.
Ela veio atender seu único cliente, já tinha uma chave do apartamento e era conhecida do porteiro. Ao chegar deparou-se - numa cena quase invariável - com as velhas fotos dispersas por todo o chão do apartamento e Lucas completamente bêbado ao lado de duas garrafas de vinho vazias. Percebeu também o que parecia ser vestígio de cocaína sobre a mesa.
- Tire sua roupa mulher, arrume esta bagunça e depois terei com você - resmungou Lucas como se não tivesse bebido qualquer coisa alcoólica.
Ela o atendeu, sem questionar. E depois partiu, sem se despedir. Ele olhou pela janela, o Sol nascia e ele lembrou de uma velha música de sua juventude: "O Sol nasce pra todos só não sabe quem não quer..."
Abraço. Boa leitura.
19 de junho de 2011
Maldita Rotina!
Meia-noite. Ele deixava o aeroporto muito cansado, apesar de ter sido um voo breve de pouco menos de duas horas. Por sorte não teria que dirigir na viagem que se seguiria em algumas horas. Chegou em seu apartamento e, como de costume, apesar de muito cansado, não tinh1a nenhum sono. Resolveu não dormir até a hora de viajar.
Cinco e cinqüenta da manhã. O motorista da universidade onde ele iria palestrar mais tarde o chamava pelo interfone, dez minutos antes da hora marcada. Ele desceu apressado enquanto vestia a camisa. Deixou o cabelo um pouco espetado, sentou no banco de trás e dormiu.
Oito e quarenta da manhã. Ele descobre que a palestra fora suspensa minutos antes de chegar na universidade. Um curto-circuito danificara o equipamento de som e não havia previsão de quando estaria tudo consertado. Ele resolveu visitar alguns conhecidos que tinha por lá.
Meio-dia e vinte. Um almoço melancólico sentado sozinho numa mesa, era o único solitário de todos que estavam no restaurante, comeu rapidamente e saiu. Foi até a esquina, tinha uma banca de revistas, comprou um cigarro, fazia 20 anos que não fumava. Acendeu, e nem sabia mais tragar.
Duas da tarde. Recebeu uma ligação do motorista da universidade, todo o evento fora adiado. Ele seria levado de volta. Aguardou enquanto o motorista chegava aonde ele estava. Comprou uma água mineral, entrou no carro e partiu.
Cinco e quarenta da tarde. Chegava em sua cidade, não daria tempo sequer passar no apartamento, disse ao motorista que fosse direto para o aeroporto. A correria nos últimos dias era grande. Chegou lá na última chamada para o voo.
Sete e vinte e cinco da noite. Chegava um pouco atrasado para a aula, os alunos já o esperavam. Tomou um café na cantina antes de ir para a sala de aula. Começou a aula e não demorou para perceber que os alunos estavam inquietos. Era algo sobre uma manifestação que acontecia contra o reitor.
Dez da noite. Resolveu dormir num dos apartamentos que a universidade tinha à disposição num hotel da cidade. Estava muito cansado.
Seis da tarde do dia seguinte. Ele lembrou que esquecera do aniversário dela. Pensou em ligar, mas achou melhor não. Ficou remoendo. Mas deixou passar.
Três dias depois do aniversário. Ele estava na frente do computador, usando seus meios de comunicação quase que pré-históricos àquele tempo, quando subiu uma janela indicando que ela estava online. Ele, antes de qualquer coisa, desculpou-se sem dizer porque, mas sabendo que ela entenderia. Desculpas negadas.
Ele tentou amenizar, falou da correria, do cansaço. E ela retrucou: "Se fosse com você, você ia achar que isso justifica? Seja sincero". Ele não tinha o que dizer. Não conseguia nem falar das imensas saudades que sentia.
Ela era importante, de verdade, mas como dizer isso agora?
Abraço. Boa leitura.
9 de maio de 2011
Inominável
Não lhe satisfazia mais a música, o vinho, a literatura, menos ainda o jornal. Ele estava cansado das estórias alheias, dos sorrisos alheios, das emoções alheias. Estava cansado dessa ficção, ele nunca quisera demais, menos ainda depois de perder o pouco que quis.
Ele sempre ia aos mesmos lugares, mas o tempo passava e ele não via mais as mesmsas pessoas, era como se ele fosse o único a envelhecer, se os seus sonhos fossem fazendo com que ele envelhecesse mais que os outros. E isso era estranho, até mesmo pra ele.
Fitou a lareira indefinidamente, procurou enxergar no fogo as respostas e mais uma vez esforçou-se em vão. Até porque as respostas que ele procurava não iria encontrar, já as tinha e seu desejo de mudá-las era impotente.
Pegou o velho álbum, passou foto por foto e lágrimas sem sentido teimando em passar por seus olhos...
Abraço. Boa leitura.
30 de março de 2011
Apenas Saudade
Eu fiquei procurando um sorriso, enquanto a paisagem quase indistinta passava pela janela do ônibus naquela noite de céu estrelado mas de lua ausente. Eu procurava um sorriso que não encontraria ali, mais que isso, eu procurava um sorriso inalcançável.
A ligação recebida horas antes de cair na estrada me trouxerá muita alegria, ouvir aquela voz doce ao telefone me remetera a lembranças de um tempo bom, um tempo que não mais voltaria. E ainda que fosse apenas pra agradecer a devolução dos discos velhos dos Mutantes.
Como sempre, eu alonguei a conversa para rápidoslongos trinta minutos. Com o intuito exclusivo de ouvir sua voz. E após desligar, retornei a ligação pra desejar um bom dia, e ouví-la novamente. Mas ficou me faltando o seu sorriso.
O sorriso de nossos abraços apertados, dos cigarros compartilhados, do vinho barato comprado no buteco da esquina. O sorriso que você me dava quando eu chegava naquela casa que tinha sua cor, a cor da sua alegria. Esse sorriso me falta, me faltará sempre. Só sobra a saudade e, por sorte, algumas migalhas de pão.
Talvez você apague esse e-mail antes de ler, talvez nunca o leia, ou simplesmente leia e ignore. Ainda assim, até logo, mas não adeus.
Em silêncio após reler o que ele tinha escrito, Caroline deitou-se ao lado de André, fechou os olhos e dormiu.
Abraço. Boa leitura.
25 de março de 2011
Concerto
Ele atentava para cada detalhe da moça ao seu lado, do pouco mais delicado movimento do cabelo até uma suave ansiedade no bater dos pés, passando por suaves piscar de olhos e alguns risos recatados observando a orquestra. Mas eram os olhos negros que o prendiam, ainda que de forma esquiva não cansava de tentar fitá-los.
Por alguns instantes a música da orquestra era inaudível, os traços da moça pareciam servir como mãos tapando seus ouvidos. E mais, ele por vezes desejou sentir o toque da moça, a maciez de sua pele, chegou a ter a ligeira sensação de ter hesitado em tocá-la. E ele queria tê-lo feito, ali enquanto a orquestra começava as novidades do concerto.
Se conteve, como forma de se proteger, é fato, mas os olhares diferentes que lançara naquela noite certamente o incomodariam em outras noites. Na saída do teatro, após o concerto, trocou algumas palavras com Sofia e, finalmente, a tocoou, despediu-se com um abraço que lhe trouxe ainda mais força à imaginação, o perfume dela era quase tão incrível quanto o olhar negro.
Abraço. Boa leitura.
Nota: esse conto foi manuscrito, escrevi mais cedo com uma caneta e um papel em branco.
21 de março de 2011
Músicas e lembranças
17 de janeiro de 2011
Reprise
A verdade é que quando a tragédia acontece todo mundo tem consciência social, todo mundo é solidário, todo mundo quer somar à união de esforços. Mas enquanto as pessoas esperarem que as tragédias ocorram para ajudar as vítimas e assim ganhar pontos como cidadãos politicamente corretos e solidários, essas mesmas pessoas não passarão de um ajuntamento de idiotas.
O que aconteceu no Rio não foi um desastre natural, foi irresponsabilidade. Das vítimas e do poder público. Esse último, por omissão, por inação. E algumas pessoas poderão achar arrogante criticar e apontar culpados agora, mas do meu ponto de vista é muito mais responsável fazer isso do que doar R$ 25 mil ganhos num jogo de pôquer, atitude típica de quem quer aparecer nas colunas sociais.
A tragédia carioca é apenas um filme reprisado, e enquanto as pessoas não foram capazes de perceber que o mal tem que ser cortado pela raiz e preferirem paliar as tragédias fazendo doações para as vítimas, é triste, mas é preciso dizer que a sociedade será cúmplice de homicídio.
E enquanto isso, mais uma vez eu peço pro Gil cantar: "O Rio de Janeiro continua lindo..."
Abraço. Boa leitura.
4 de janeiro de 2011
No Fim Venceu a Diversão...
E é na guerra diária das responsabilidades que deixamos passar despercebido tantas coisas que achamos divertidas, que nos deixam felizes ou mesmo que nos irritam de uma forma saudável. Na correria de trabalho, faculdade e outras responsabilidades, mal paramos para dar uma boa gargalhada, os sorrisos de felicidade são raros, normalmente depois de uma prova ou em uma ocasião especial (leia-se: sentimental), e as irritações constantes não são nenhum pouco saudáveis. Mas felizmente alguém inventou as férias.
As férias para reencontrar com os amigos, as férias para passar a noite fazendo algo que nós fazíamos durante o dia quando éramos criança. As férias pra dormirmos de dia e passarmos a noite acordados. Tem um certo tédio em alguns momentos das férias, mas ainda assim, férias são sempre férias. É um período sem responsabilidades, embora não seja um período para sermos irresponsáveis, seria como confundir liberdade e libertinagem.
Ora, ora, se não seria de Renato Russo que eu me lembraria agora, a música é L'Aventura, quando o Renato diz que "quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é coisa muito séria" - acho que ouvi isso pela primeira numa aula de Cloacir. E ser livre como uma andorinha (não é a mesma coisa que a rolinha, Fernanda, olhei no pai dos burros) que voa para onde quer, realmente é algo muito sério, muita gente confunde liberdade com a libertinagem do Conde de Rochester, que foi além dos limites e encurtou sua vida.
Mas a vida é curta depois que a gente entra na universidade, responsabilidades, escolhas que decidirão nosso futuro e uma rotina assassina que faz o tempo passar mais rápido. E depois vem o trabalho, e com o salário as contas. E de repente estamos velhos, cansados e percebemos que a vida passou. Ficando só as lembranças de noites como a de hoje, com uma amiga que chorou de rir pra não morrer no jogo, de um amigo que saiu do jogo pra ir dormir e antes de ir passou mais de uma hora nos braços da amiga que morreu (eu percebi sua preguiça repentina seu Rilliam), da outra amiga que disse umas dez vezes que ia parar de jogar porque estava com azar (sem falar nos sucessivos putaquepariu, né Anelisa?) e do (melhor) amigo que entrou no meio do jogo e como sempre quis me atrapalhar, mas no fim, eu venci.
Venci? Que nada! Foi divertido demais para só eu ter vencido. Até porque, todos teremos as mesmas lembranças.
Abraço. Boa leitura.
31 de dezembro de 2010
Repostando...
Mas o príncipe Leopold, herdeiro do Império Austro-Hungárom está noivo de Sophie, e fará de tudo para casar com ela e realizar seus planos de dar um golpe no pai. A trama do filme é muito bem estruturada, e o final é surpreendente. Mas eu não sou fã de spoillers, vejam o filme, vale a pena. No decorrer do filme, usando suas ilusões Eisenheim passa a ser perseguido pelo chefe de polícia.
Já nos momentos decisivos do filme, quando questionado pelo chefe de polícia por que insistia em tais atitudes, Eisenheim limitou-se a responder: "É apenas para estar com ela...". Apenas mais tarde o chefe de polícia entenderia que o ilusionista estava apenas fazendo mais um truque, um truque "vivo". Mas o interessante nessa parte, é a fala do ilusionista, para estar com ela...
E sabem, se pararmos para pensar um pouco as vezes fazemos isso. As vezes fazemos algo, um sacrifício ou não, apenas para nos sentirmos perto de alguém, ou para estarmos perto literalmente. Sempre movidos por algum sentimento forte, seja uma paixão ou uma grande amizade. O fato é que quando situações assim acontecem, é porque existem pessoas com as quais nos importamos e nos preocupamos, e pessoas que de uma forma ou de outra amamos de verdade.
Sabem, eu já parei uma vez, já deixei tudo que eu estava fazendo para me sentir perto de alguém muito importante pra mim, e não me arrependo. Porque quando sentimos essa necessidade de largar tudo, fazê-lo nos traz tranquilidade, calmaria e, acima de tudo, nos deixa felizes. E é isso que importa, ser feliz. É curiosa uma observação que Eisenheim faz no começo do filme: "Nunca tivemos a sensação de que um lindo momento pareceu passar tão rápido e queriam que pudéssemos faze-lo durar mais? Ou ver que o tempo não passa em um dia tedioso e queriam que pudéssemos faze-lo passar mais rápido?"
Abraço. Boa leitura.
N.A.: É a primeira vez que posto algo que já postei antes.
Outra N.A.: A parte em itálico após a quebra do texto foi retirada da postagem original.